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Perfeccionismo: a doença que está acabando com a carreira de escritores antes que ela comece

Henrique Carvalho Escrito por Henrique Carvalho em 15 de março de 2021
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Ele levou 12 anos para criar sua própria mitologia e escrever os 3 livros que o levaram ao sucesso.

E outros 4 anos para finalmente publicá-los.

Mas, por pouco, não perdeu a oportunidade da sua vida por culpa do seu extremo perfeccionismo.

Apesar de ter criado um dos mundos fictícios mais fantásticos da literatura, J.R.R. Tolkien era um perfeccionista assumido.

Defeito disfarçado de qualidade que quase manteve no ostracismo uma das mentes mais inventivas e brilhantes do seu tempo.

Por sorte e vitória sobre o perfeccionismo, a história de Tolkien e o Senhor dos Anéis teve um final feliz.

No entanto, se esse mal disfarçado de virtude não for eliminado, ele vai continuar impedindo que tantos escritores talentosos  acabem com sua carreira antes mesmo que ela comece.

O que é perfeccionismo

Criar uma obra literária do mesmo porte que o Senhor dos Anéis não seria possível sem o mesmo grau de imaginação, precisão dos detalhes e vontade de atingir um ideal que Tolkien tinha.

No entanto, ele nunca estava satisfeito com seu trabalho e buscava sempre aperfeiçoar detalhes toda vez que voltava a escrever.

Essa mesma busca por perfeição que o levou a criar suas duas obras mais conhecidas, o Hobbit e o Senhor dos Anéis, também era aplicada na hora de responder às muitas cartas que recebia de seus fãs.

Muitas delas eram escritas mais de uma vez, até que ele se visse satisfeito com o resultado final.

Esse cuidado e relacionamento com os fãs se provou fundamental quando sua obra foi pirateada nos Estados Unidos.

Foi a união dos fãs, a pedido dele, que impediu que a empresa que tentava vender seus livros sem pagar os devidos royalties não conseguisse prosseguir nessa empreitada.

Olhando para a história desse grande escritor, e os fatos que apresentei, até parece bom ser perfeccionista.

Mas existe uma diferença entre o perfeccionismo e e a busca pela excelência e superação.

Por que o perfeccionismo é um defeito?

O que torna o perfeccionismo perigoso e tóxico não é a busca pela perfeição em si, mas a paralisia para evitar o fracasso.

Como o perfeccionista não pode garantir que não vai falhar, ele não faz nada. Escolhe não se arriscar.

O perfeccionismo se manifesta de 3 formas:

1. Através da autocobrança para alcançar metas irreais;

2.Na exigência para que outras pessoas sejam à prova de falhas;

3.Na crença de que outras pessoas esperam a perfeição da sua parte.

De qualquer forma, o perfeccionismo é uma busca fora da realidade, seja de quem vier.

O medo de errar, ou receber julgamentos, cria a ilusão de que tudo o que você entregar precisa ser perfeito para agradar a todos.

A verdade é que agradando a todos você não está agradando ninguém. Muito menos a você mesmo.

Há uma origem social na busca pela perfeição ilusória, pois essa tendência cresceu muito nos últimos 30 anos.

As redes sociais potencializaram ainda mais o problema, já que agora somos expostos o tempo todo a outras pessoas que fazem o mesmo que nós ou vivem vidas aparentemente felizes e perfeitas o tempo todo.

Estamos nos comparando com ilusões. Sem lembrar que estamos vendo é apenas o palco. Ninguém sabe o que realmente acontece nos bastidores alheios. Mas no nosso, conhecemos cada defeito e dificuldade.

O problema se torna mais grave ao passo que ele nos impede de viver e, no nosso caso, como escritores, de mostrar nossas ideias para o mundo.

Como identificar se você é um escritor perfeccionista?

Muitos sentem orgulho de serem perfeccionistas. Quase soa como uma qualidade, afinal, o perfeccionista é aquele que busca fazer o melhor, certo?

A idealização de algo, a espera pelo momento certo, aquele texto que nunca está pronto para ser publicado.

Tudo isso é fruto de insegurança, uma forma de manifestação dessa busca desenfreada pela perfeição.

A fantasia de que é possível atravessar um rio e chegar do outro lado completamente seco.

“O perfeccionismo é uma forma congelada de idealismo, enquanto a confusão é amiga do artista.”

Guarde essas duas frases:

Nenhum texto nasce perfeito.

O processo criativo é caótico.

Como uma escultura, é preciso lapidar a pedra, palavra a palavra, para que se chegue ao texto acabado.

O que você escreve hoje, sempre será pior do que você criará amanhã. Mas apenas se você começar a fazê-lo.

Sem a busca pelas condições ideais, pela inspiração que nunca chega ou pela ideia 100% pronta para ser colocada em palavras.

O processo da escrita é uma construção, onde se levantam as bases com o rascunho inicial.

A revisão chega para arrematar detalhes, tirar os excessos e corrigir os erros cometidos durante a fase de construção.

Todos podem revisar e melhorar um texto ruim, mas não uma página em branco.

O escritor perfecionista acaba por conviver com um outro destruidor de sonhos: a procrastinação .

Além disso, elogios causam a sensação de desconforto, o mesmo que acontece com alguém que sofre com a síndrome do impostor.

O sucesso, seja grande ou pequeno, nunca é celebrado, pois o foco sempre está naquilo que falta.

Ao mesmo tempo, o perfeccionista depende da aprovação, aceitação e elogios de outras pessoas, sejam elas pessoas próximas ou desconhecidos.

Nem durante após várias revisões o escritor-perfeccionista considera sua escrita boa o bastante para ser apreciada por outras pessoas.

Então, eles escondem suas ideias em uma gaveta onde ninguém possa alcançá-las e continua a fazer aperfeiçoamentos toda vez que entra em contato com o seu material, que era o mesmo caso de Tolkien.

A sensação de não bastar, de não ser bom o suficiente ou ser uma farsa são presentes em cada momento que as palavras ousam chegar no papel.

Vencer a inércia inicial de sequer escrever já é muito para o perfeccionista, mas deixar que outras pessoas vejam aquilo que ele nunca julga ser bom o suficiente é ainda mais complicado.

O que não é perfeccionismo

A busca pela excelência, no entanto, não deve ser confundida com perfeccionismo.

Para alcançar o posto mais próximo dela é preciso fazer uma única coisa que o perfeccionismo não permite: agir.

Estar em movimento é diferente de agir.

Se você rascunhar vinte ideias para artigos que quero escrever, isso é movimento.

Se você sentar e escrever um artigo, isso é ação.

Alguns até poderiam dizer que J.R.R. Tolkien era alguém que buscava o seu melhor e não um crítico feroz do seu próprio trabalho.

Nem sempre trabalhar duro e ter metas ousadas é sinal de perfeccionismo. O que caracteriza esse mal é a presença de uma voz interior que nunca se cala. E ela é o crítico mais severo de todos.

Aquele que busca pela excelência não se confunde com seu fracasso.

Se um texto seu foi criticado por conter erros gramaticais, ele(a) pode ficar chateado com a crítica e com seu próprio trabalho, mas jamais irá acreditar que é um fracassado por causa disso.

Essa crítica a sua escrita não afeta a percepção positiva que possui de si mesmo.

Porém, o perfeccionista se confunde com a sua própria obra, acreditando que uma crítica a seu texto é a mesma coisa que uma crítica à sua pessoa. O sentimento de “eu sou um fracasso”, “nunca vou fazer ada certo” ou “não sou bom o bastante” aparece imediatamente.

A mania de perfeição leva alguém a aumentar o problema de forma radical, enxergando uma brisa suave como um furacão.

Buscar a excelência é positivo, como fez Tolkien.

Mas ser derrotado pela sensação de não merecimento é só um dos perigos trazidos pelo perfeccionismo.

Armadilhas do perfeccionismo

A eterna procrastinação que gera inércia é só um dos problemas mais superficiais causados pela busca frenética de uma perfeição impossível.

Em casos mais graves, essa autocobrança excessiva pode causar estresse, fadiga, burnout, dores crônicas, ansiedade, depressão, transtornos compulsivos e até suicídios.

Como vimos, os escritores perfeccionistas não conseguem dissociar seus textos de si mesmos.

A decepção por um fracasso (algo absolutamente normal) se torna uma vergonha por ser quem se é.

E para não sentir a sensação de vergonha novamente, o perfeccionista prefere ficar na zona de conforto, sem arriscar, mas também sem realizar nada.

Um círculo vicioso que, cedo ou tarde, irá causar graves transtornos na saúde física e mental de quem sofre com esse mal.

A falta de criatividade é um dos primeiros sintomas do perfectionista.

A pressão por ter uma ideia brilhante ou escrever um texto perfeito logo de cara, acaba por causar o bloqueio criativo.

6 formas de transformar o perfeccionismo em excelência

O que fazer para se curar do perfeccionismo?

1. Aplique a regra dos 5 segundos

A regra dos 5 segundos é um livro de Mel Robbins, que fala sobre a janela da tomada de decisão, que como já deve estar clara, é de 5 segundos.

Isso quer dizer que você sabe que precisa fazer alguma coisa, como acordar bem cedo, e que não pode hesitar porque irá procrastinar.

Conheci essa regra na época que me propus a acordar às 5 da manhã. E foi a razão do meu sucesso nessa empreitada.

Toda vez que em despertador tocava, eu olhava para ele e em 5 segundos a minha janela de decisão acontecia.

A escolha ficava entre levantar e começar o dia ou voltar a dormir.

Bastava contar até 5 e simplesmente tomar uma decisão rápida, sem pensar muito.

Sem racionalizar desculpas para continuar dormindo. Ou deixar de escrever.

E por que isso funciona?

Porque a nossa mente entra em um estado lógico em que ela sabe o que é bom.

Então sei que é bom eu acordar cedo, eu me programei para isso, quero fazer isso.

Mas se eu ficar no campo das emoções e sentimentos vou acabar criando desculpas para procrastinar.

A regra dos 5 segundos não dá tempo hábil para procrastinação, seja para começar a escrever ou ir para a academia.

2. Não leve as críticas para o lado pessoal

Você não será um escritor ruim ou fadado ao fracasso porque algum hater deixou um comentário maldoso, ou até uma crítica construtiva, no seu texto.

Talvez a crítica até faça sentindo. Ainda assim, pode ser que o seu trabalho precise de ajustes, que você precise fazer um curso de escrita, mas você não é ruim ou fracassado porque cometeu um erro.

3. Escreva livremente… mas escreva.

O passo mais difícil é começar. Digitar ou escrever a primeira sentença.

Depois que você quebra a barreira, como um rio descendo pela montanha, as palavras começam a jorrar no papel.

Stephen King diz que o primeiro rascunho deve ser feito com as portas fechadas. Esse texto ainda não está pronto para chegar até outras pessoas.

Escrever de portas fechadas significa que ninguém, além de você irá ler o que está escrito. Logo, você não precisa se preocupar com a qualidade da escrita nesse primeiro momento.

Saiba que seu texto será revisado e aindairá melhorar muito nas suas mãos, antes de chegar aos olhos de outras pessoas para feedbacks.

4. Foque em melhorar uma coisa de cada vez

Perfeccionistas querem que todos os aspectos do seu trabalho sejam como ele sonha. De uma vez só.

A tal da expectativa irreal que falamos tanto até o momento.

Aceite que não dá para dominar a escrita persuasiva, ser um mestre da língua portuguesa e um gênio criativo com apenas duas semanas de trabalho e estudo.

Dominar a arte da escrita, e suas variáveis, leva tempo.

Ao invés de fazer tudo com perfeição, apenas faça. O feito é melhor que perfeito pode ser usado quando você está aprendendo e experimentando.

Como uma criança que vai andar de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez, tombos, e talvez um joelho ralado, são inevitáveis. Mas, cedo ou tarde, você para de cair da bicicleta.

Ao invés de tentar aperfeiçoar tudo de uma vez, faça uma lista de prioridades e comece por elas.

Por exemplo: nunca escolha uma boa gramática ao invés de uma escrita que flui.

Não há nada virtuoso em escrever sem erros de português, mas que não funciona ao encantar leitores.

Seu objetivo é, e sempre deve ser, escrever bem, mas  uma boa gramática é apenas uma das ferramentas que você usa para alcançar um texto memorável.

Da mesma forma que um bom árbitro não garante um bom jogo de futebol, escrever todas as sentenças com perfeição gramatical não garante o desejo nos seus leitores de virar páginas.

Se tiver que escolher, já sabe por onde começar.

5. Evite se comparar com outros escritores experientes

Abandonar a mentalidade de comparação pode ajudar as pessoas a atingirem um alto nível.

É justo você avaliar o seu progresso se comparando com Machado de Assis, Ernest Hemingway ou o próprio Tolkien?

Faz sentido avaliar se sua escrita está trazendo clientes para seu negócio comparando-se com outras pessoas que estão há anos no mercado, errando e acertando?

A única comparação válida é entre a sua escrita de hoje e a do passado. Só assim você poderá ter certeza que está evoluindo.

Não seja seu pior crítico, mas seu maior incentivador. Qualquer esforço na direção do progresso deve ser reconhecido, mesmo que esteja longe do seu ideal perfeccionista.

6.Responda uma pergunta

Sempre começo organizando o corpo do texto com os principais tópicos e subtópicos dentro do tema que escolhi escrever.

Assim, consigo gerar mais clareza sobre o assunto, como o famigerado medo da página em branco desaparece no dia da escrita.

Uma das melhores maneiras de não ser dominado pelo desejo do perfeccionismo nesse momento é saber o que você vai escrever antes de se sentar para trabalhar.

Tenho o hábito de anotar ideias, reflexões ou de uma pergunta que vou responder na minha rotina de escrita no dia seguinte. Assim, já não começo com a página em branco e não preciso ficar pensando sobre o que escrever.

Até que ponto a busca da perfeição pode ser positiva?

Tolkien era um perfeccionista e, apesar disso, conseguiu publicar dois livros e aproveitar seu enorme sucesso enquanto ainda estava vivo.

Mas, como registrou em seu diário, ele teve medo de nunca terminar suas complexas histórias. Se viu, aos 51 anos, muito distante de chegar ao fim do Senhor dos Anéis.

Ele desenhava mapas, calculava distâncias, fases da lua e até a direção dos ventos para ter certeza que a narrativa fazia sentido. E foi essa busca obsessiva pela excelência que fez a obra da sua vida ser tão fantástica.

Porém, ao perceber o risco que corria de não finalizar o grande trabalho da sua vida, ele precisou abrir mão do perfeccionismo para que suas palavras ganhassem o mundo.

E assim ele foi capaz de fazer, apesar de ter deixado muitos outras trabalhos inacabados como o “Silmarillion”, livro só foi publicado após a sua morte, compilado por seu filho, e que foi a obra que inspirou o Hobbit e o Senhor dos Anéis.

Talvez ele não quisesse terminar porque não queria ver aquele mundo do qual ele era o criador chegando a um fim.

Mas o fim, assim como a perfeição, também é uma ilusão.

Ele nunca chega. Você que escolhe seguir em frente.

“Melhorar é mudar, então ser perfeito é se transformar frequentemente” — Winston Churchill

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